
A propósito do triste caso de uns vizinhos meus velhotes que esta semana foram despachados em correio-expresso para um Lar-amargo-Lar, algures no Alentejo, apetece-me deixar umas palavras que, de alguma maneira misteriosa mas eficaz, gostaria que pudessem chegar bem ao centro do coração das criaturas que fizeram o despacho das encomendas. A idade-avó vem quando menos se espera. Desde sempre sabemos da existência de avós, especialmente dos nossos que, naturalmente, são aqueles que mais nos marcam e melhores lembranças nos deixam. O tempo vai passando mas raramente damos por nós a pensar na altura em que poderemos chegar a velhos. Quem pensa em ser velhote, quando lhe apetece beber um shot num bar e pensar que ali reside a força da vida, naquela energia repentina que queima e ao mesmo tempo parece revigorar-nos por dentro? Não sendo eu fã de shots (desde a prova do quase-mortífero Golden Strike há para aí mais de dez anos atrás), percebo a sensação que deve dar. E também percebo que não nos imaginamos um dia em estado-velhote, a massacrar a placa com trincas em bolachas-maria, num qualquer Lar-amargo-lar, quando hoje estamos a pensar somente na morte da bezerra, enquanto desfrutamos de um bom pires de caracóis ou daqueles fantásticos raios de sol numa qualquer esplanada. Nunca pensamos que um dia, deixaremos de pensar na morte da bezerra para pensar na nossa própria morte, coisa que não é necessariamente má ou deprimente, mas não dá muito jeito, especialmente quando nos vemos de uma hora para a outra profundamente menos novos, talvez mais debilitados, e sem aquela natural vontade de contar umas piadas. Nessa altura, quem nos ouvirá? Nem o nosso próprio ouvido está em condições de ouvir. Nem a cabeça de aturar a nossa própria voz. Por vezes nem se consegue aturar o próprio batimento do coração. Chegada essa altura, apercebemo-nos que não hipótese, envelhecemos mesmo. E foi de um todo. De cima a baixo, nas extremidades, por dentro e por fora. Estamos tão velhos que nem podemos com tanta velhice. Temos então duas hipóteses. Desistir, porque sim, porque já não apetece mesmo mais nada, ou continuar porque 'Ai! A velha 'tá parva!!, ia lá agora desistir... logo uma velha rebelde como eu!...Onde é que está um baralho de cartas, que eu vou já dar-te uma coça?'
Pois há sempre esta hipótese, que é a meu ver a mais positiva e a mais desejável. Mas é neste momento que entra o pormenor da questão de se conseguir lidar saudavelmente com a idade e com as mazelas que esta vai trazendo e deixando permanecer em nós. Para conseguirmos aceitar que sim, é normal ser velho e porque não, até divertido (não é bem só rir, só rir, mas acredito que também tem a sua piada) há que ter junto a nós alguém que nos ame, alguém que nos ajude a levantar os braços, as pernas e o astral mais um dia, ou a abrir de novo a boca para que lá entre um surpreendente beijo e não mais uma bolacha-maria. Há que ter alguém que nos acolha, que nos chame de pai ou mãe e que com isso se sinta feliz por ter o velho ou a velha ainda por perto. Há que ter alguém que nos ame, que nos ature, que nos apoie, que nos mude a fralda (se não for Dodot ou algo que diga 'Sensitive' ou 'Com Água de Rosas', eu como velha revolucionária não vou aceitar daquelas coisas enormes do Continente assim por dá lá aquela fralda!), que nos abrace, que nos leve onde seja preciso e que nos peça conselhos e histórias e memórias e tudo o que possamos e fazemos gosto de ainda partilhar.
No fundo, um dia, quando chegarmos a velhos, precisaremos que alguém nos diga: 'Metes-me uns nervos que sei lá!, mas fica aqui comigo, que estás muito bem.' E nesse dia, daremos graças a Deus por a idade-avó não significar a nossa própria experiência da morte da tal bezerra que nos deixou o pensamento a pairar, em clima de total despreocupação, nos verdes tempos em que não precisávamos de mais ninguém a não ser de nós mesmos e qui ça, do tal copo de Golden Strike ao som de 'Always look at the bright side of life'.
P.S- O Anjo da foto de hoje foi-me oferecido há dois dias atrás pela D.Odete, uma querida amiga de 76 anos que tem a sorte de ter uma filha que olha por ela, como um miúdo vê o Noddy ou coisa parecida.